União das religiões: será possível hoje?

Tentando analisar e fundamentar o tema relativo à necessidade de
uma união da multiplicidade de religiões existentes neste planeta cheio de
dissenções raciais, ideológicas, políticas, sociais e especialmente -- - por
que seria diferente -- - de credos, deparamo-nos com os conselhos de
Santo Agostinho (Espírito), reproduzido nas Conclusões lavradas por
Kardec no fecho do Livro dos Espíritos(1), a propósito do laço futuro de
união dos homens, seguinte:
“Durante muito tempo, os homens se têm estraçalhado e
anatematizado mutuamente em nome de um Deus de paz e de misericórdia,
ofendendo-o com semelhante sacrilégio. O Espiritismo é o laço que os
unirá um dia, porque lhes mostrará onde está a verdade e onde está o erro.
Mas, por muito tempo ainda, escribas e fariseus o negarão, como negaram
o Cristo. Quereis saber sob a influência de que Espíritos estão as diversas
seitas que entre si dividiram o mundo? Julgai-o pelas suas obras e pelos
seus princípios. Nunca os bons Espíritos instigaram o mal; jamais
aconselharam ou legitimaram o assassínio e a violência; nunca estimularam
os ódios dos partidos, nem a sede das riquezas e das honras, nem a avidez
dos bens da Terra. Os que são bons, humanitários e benevolentes para com
todos, esses são os prediletos dos Bons Espíritos e os preferidos de Jesus,
porque seguem o caminho que este lhes indicou para chegarem a Ele”.

Portanto, se pretendemos analisar a possibilidade de união das
religiões existentes neste mundo, temos que admitir que tenham de estar
presentes algumas premissas básicas no coração -- e, sobretudo, nas ações
efetivas -- de todos os profitentes (para ficar só nas principais que grassam
pelos povos, sejam eles judeus, islamitas, católicos, hinduístas, budistas,
brahmanistas, taoístas, xintoístas, mazdeítas, messiânicos, protestantes –
antigos e novos – e, é claro, os espíritas), tirados dos conselhos supra,
como:

(a) Não bastará admitir, apenas no discurso, que o Criador (qualquer
que seja o nome que se Lhe dê: Deus, Jeová, Alá, Fo-Hi, Foco
Divino, Arquiteto Supremo, Brahma, etc.) é a síntese da Paz e da
Misericórdia; na prática o que se tem verificado dentre os grupos
ditos religiosos é exatamente o contrário: dissenções, lutas, guerras,
dominações, sentimento de orgulho, vaidade, desamor e anti-
fraternidade. Isso ontem e hoje!

(b) Conhecer a perfeita distinção entre onde está a Verdade e o Erro:
todos proclamam ser detentor de verdades, as mais variadas
verdades (que por serem variadas, já não são verdades propriamente
ditas), mas atuam no erro, impondo a ignorância e o proselitismo
desenfreado.

(c) Analisar as obras e os princípios em que se baseiam e que pregam
para avaliar se estão em conformidade com a fraternidade e o
respeito mútuo. O que se vê é a pregação da desunião e do respeito
apenas aos seus interesses imediatos e, assim mesmo, em favor não
da gama de seguidores, mas de grupos dirigentes.

(d) Ponderar se pregam o Bem comum e não instigam as dissidências e
os ódios, impondo o partidarismo das idéias e ações. Constata-se
exatamente o oposto, em que povos inteiros são instigados à
violência e ao morticínio.

(e) Cientificar se estimulam o comedimento e uso dos bens terrestres
com cuidado e não adoração dos cargos e acumulação de riquezas;
na prática, a singeleza de uso dos bens terrenos, a moderação, a
sobriedade, a modéstia e a não ostentação só são recomendados aos
subalternos seguidores, jamais aos dirigentes, que não se pejam em
viver no fausto, na pompa e no luxo.

(f) Perquirir se são bons, humanitários e fraternos: nem é preciso dizer
o que há dessas virtudes na prática...

(g) Se agem com justiça, amor e caridade, enfim.
Somente depois de se conscientizarem de que todos, absolutamente
todos, agem (com naturalidade e sem hipocrisia verbal) em conformidade
com esses preceitos é que se poderá admitir a solidariedade fraterna
universal e, daí, cogitar-se da união efetiva das religiões. Tal será
impossível, ao menos distante e inviável, enquanto cada grupo, seita ou
religião persistir em um individualismo e um pragmatismo arraigado,
preconceituoso e prepotente.

Se o verdadeiro significado de religião não é o conjunto de preceitos
e de atos especiais de um determinado grupo, mas sim a religação com o
Mais Alto, com o Criador, então os atuais grupos religiosos estão muito
distantes da união geral ou universal.

Quanto aos Espíritas, sua obrigação de conduta escorreita em
conformidade com os conselhos supra de Agostinho, é mais acentuada, vez
que têm conhecimento do caminho certo e, por isso, deveriam trilhá-lo ou
empenhar-se em buscar trilhar sob pena de responderem mais pesadamente
por seus atos, vez que é mais responsável quem já conhece e quem já tem
certeza do que significa pautar-se pelo caminho do Eterno Bem. É
imperioso que dentro (e sobretudo fora!) da Casa Espírita, o trabalhador e
seguidor ajam no sentido de respeitar o próximo, de trabalhar a soberba e
os preconceitos, a fim de dizer-se efetivamente fraterno.

O Irmão X (Humberto de Campos, Espírito), em uma lição que
denominou “Religiões Irmanadas”(2), nos lega uma fábula com um final
enfático sobre a conveniência de se irmanarem as religiões em favor da
concórdia do mundo, mais ou menos assim: uma onça apareceu na selva
imensamente transformada, sem aparentar a antiga astúcia e sem violência,
dizia que pretendia reunir todos os bichos no caminho da paz, escondendo
as próprias garras. Pregava que agora entendia que Deus é Pai de todas as
criaturas, daí que todos se irmanassem em favor do amor Dele. Admitiu
seus erros do passado e os abusos cometidos, despertando o terror pela
inteligência e pela força. Por isso, convidava os irmãos à unidade, vivendo
em perpétua harmonia, em torno de uma fé única, renunciando a guerras e
desejos de dominação. Ou seja, viverem todos numa nova ordem: amar-se
em louvor da Providência Divina! Marrecos, servos, lebres, pacas, tucanos
e pássaros, que sempre oraram pacificamente à sua maneira, duvidaram da
sinceridade do discurso da onça. Porém, serpentes, raposas, aranhas e
abutres, aderiram prontamente com o ‘brilhante’ projeto. O restante da
bicharada, humilde e sincera, se comoveu com a profundidade dos
argumentos e aceitaram, em nome do Pai Altíssimo, a proposta. Marcada a
data da assembléia, todos se dirigiram para o local escolhido, transformado
em um santuário de flores, a fim de materializarem o intento tão nobre...
‘Quando a cerimônia ia a meio caminho, com as raposas servindo de
locutoras para entreter os ouvintes, as serpentes deitaram silvos estranhos
sobre os crentes pacatos, as aranhas teceram escura teia nos orifícios do
antro, embaçando o ambiente, os abutres entupiram a porta de saída, e a
onça, cruel, avançou sobre as presas desprevenidas, transformando a
reunião em pavoroso repasto... E os bichos que sobraram foram
escravizados na sombra, para banquete oportuno...’

E, após a fábula, termina o autor espiritual: “A união de todos os
credos é meta divina para o divino futuro, mas, por enquanto, a Terra ainda
está fascinada pelo critério da maioria. Como vemos, é possível trabalhar
pela conciliação dos religiosos de todas as procedências; no entanto,
segundo anotamos, será preciso enfrentar a onça e os amigos da onça...”
Que os Espíritas, conscientes da sua responsabilidade perante a
humanidade, não permitam a desunião interna dentro da própria Doutrina,
e, para poderem um dia pleitear a união entre os credos, que se unam ao
menos, em torna da Causa Espírita. Em uma palavra: vigiem para não se
verterem em onças, nem em amigos dela.



Francisco Aranda Gabilan
fagabilan@uol.com.br
Fevereiro/2008

1 Livro do Espíritos, A. Kardec, Conclusão n. IX
2 Contos Desta e Doutra Vida, cap. 21, psicografia de F. C. Xavier

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